domingo, 29 de setembro de 2013

ADRIANE GARCIA, sobre "NOVELLA"

Novella, de Sérgio Fantini, editora Jovens Escribas, 2013.

Terminei ontem, à noite, a leitura de Novella, de Sérgio Fantini.  Terminei sem querer que o livro acabasse. Ou, terminei pensando: “já acabou?”. Um professor de teatro, certa vez, disse-me que essa sensação era uma das maneiras de identificar se um peça era boa: nas ruins a gente fica se perguntando o contrário: “nossa! Será que falta muito para acabar?”
Pois é. O autor mineiro, Sérgio Fantini, oferece-nos contos que remetem a uma juventude onde os personagens estão vivendo sua cultura etária, envolvendo a música, a curiosidade e o escape da angústia através das drogas, a busca, quase sempre sofrível, do sexo, a presença constante da solidão, a procura do amor. E, conjuntamente, contos cujos personagens são crianças, adultos e velhos, imersos na frustração, na solidão e na mesma busca. Aliás, o amor, desejado e frustrante, permeará praticamente todo o livro, num jogo hábil e criativo do escritor.
E foi esse jogo hábil que foi crescendo no livro, visto que é sem dúvida, um livro que cresce. A organização dos títulos foi crucial para que continuássemos lendo, com avidez. A forma literária, o trabalho de forma com que o autor se esmerou, ia-nos mostrando, além das histórias por si, o gosto de quem quer descobrir mais que elas. Talento. Levava-nos Fantini, a um ápice.
Novella, ele explica, são histórias vividas sempre pelos mesmos personagens (como acontece às novelas televisivas). Mas aqui, obviamente – pois estamos falando de literatura – nada está pasteurizado, a complexidade da vida quase a nos deixar sem fôlego, pois identificando-a nos personagens e situações lidas, ficamos a nos perguntar sobre um modo para viver alguma plenitude. Humanizados, os personagens de Fantini nos reforçam o compreender. E esse é um outro critério (pessoal) que eu, como leitora, uso para identificar se um livro é bom.
Num determinado momento, em Dorinha, Sérgio Fantini constrói, em Novella, um conto feliz e, de propósito, muito sutilmente, gera um incômodo no leitor. Ao fim, o autor mesmo nos adverte com uma frase de Bráulio Tavares: “As histórias felizes não nos satisfazem porque sabemos serem intrinsecamente falsas...”
Certamente, para mim, ainda houve o deleite de passear por minha cidade, Belo Horizonte, de reconhecer esse território/cenário e então, trazer ainda para mais perto, alguns dos contos. Mas quase ao fim (ah! Como adoro os livros impiedosos!), as suposições feitas a respeito de uma mulher, de uma relação amorosa, a partir de Maria, sempre uma outra Maria e sempre a mesma; vários contos a deixar-nos assim boquiabertos sem saber se ela é real ou imaginária, se elas são reais ou imaginárias e saber que o próprio lirismo cresce a partir da incompletude dessa relação, dessas... ah! Eu não queria mesmo que o livro acabasse.
Mas Sérgio Fantini soube a medida exata para encerrar: o auge. E é com o gênero supremo, a poesia, que finaliza.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

A MEMÓRIA DE ÂNGELO HELEODORO

   


   Em 1981, a convite do meu amigo e também primo Leonardo Cruz de Viterbo, fui assistir ao ensaio da Orquestra Sinfônica Mineira, cuja sede ficava na avenida Santos Dumont, centrão de BH. Enquanto os músicos trabalhavam, os visitantes desfrutavam dos serviços do bar; depois todos se reuniam - sempre sob a batuta do Ângelo, maestro e idealista daquela iniciativa. Frequentei os ensaios e as farras durante todo aquele ano. Realizamos festas e saraus. Num desses, ouvi, pela primeira vez, Ângelo, já bêbado, declamar Navio Negreiro Tabacaria, de memória. 
   Em algum momento, naquele 1981, escrevi um poema chamado Orquestrai, que dediquei a ele.
   O tempo passou, nos vimos muitas e boas vezes, mas também ficamos muitos anos sem nos ver. Fui reencontrá-lo como gerente do restaurante (é/era muito mais que um restaurante) Quinta dos Cristais, em Sabará, nas terras que foram um dia o sítio do meu tio Victor Fantini (que eu frequentei, quando criança).
   Numa das primeiras vezes em que fui lá, ele me surpreendeu recitando, de memória, meu Orquestrai. Havia se passado mais de vinte anos! Num aniversário que comemorei lá (acho que de meus 39), levei Zé da Velha e Silvério Pontes, com todos os músicos e Ângelo me presenteou com uma singela reprodução emoldurada do poema (está na minha sala, claro).
   Poderei guardar muitas lembranças boas desse camarada. 

sábado, 7 de setembro de 2013

LIVROS À MÃO CHEIA

   Se bem me conheço, o desejo de comentar com vagar os livros de leituras mais recentes será postergado até que poeira demais encubra o desejo.
   Então, tomando o bom exemplo do cronista Alexandre Brandão, apenas relaciono aqui (para minha própria lembrança, claro, já que ninguém lê este blog mesmo) alguns bons livros que tenho lido:

- BARATO (Medusa), de Ricardo Pedrosa Alves: facefriend, poeta com imenso domínio de técnicas e cultura literária geral. Gostei especialmente da primeira seção, "Música mutilada".
- ORFANATO e GARAGEM LÍRICA (Annablume), de Marcelo Montenegro: sempre citado pelo Bortolotto, facefriend recente, meio que já somos amigos também. (Diz que tem meu Coleta seletiva guardado há uns anos.) Excelente poesia rocker-blusy-jazzy-junky... mas nada ingênuo: escrita de quem sabe como usar os instrumentos para tocar a canção a seu modo.
- SENTIDO SUSPENSO (Vale em poesia), de Cristiano Silva: me surpreendeu com a orelha: o autor é apresentado pelos locais (sempre periferias) em que morou e vive. Nos conhecemos em roda de cerveja com Eduardo Sabino e Rinaldo de Fernandes (havia mais um camarada...) no 'Lucas'. Textos em prosa poética, uma ira bílica ainda em estado de vulcão. Está fazendo minha oficina no LEP.
- FRAGMENTOS IMPERTINENTES (Leiditathi), de Moisés Augusto Gonçalves: uma das figuras mais marcantes na luta política de BH: criou o personagem Capetalismo, que ficava pelas ruas provocando a atenção do povo para os desmandos do poder. São dezenas de fragmentos em tons poéticos ficcionais com forte sabor autobiográfico.
- A LOUCA REVOADA DOS CHAPÉUS (Clube de autores), de Rui Werneck de Capistrano: contos/crônicas/ensaios na prosa sempre veloz deste multi-artista curitibano. Somos amigos há quase 30 anos e sou testemunha de que a produção dele não dá trégua. Um fenômeno que o mercado editorial não absorveria nem que tomasse conhecimento do que ele faz. Tem outros títulos disponíveis no site da editora.
- CORPÚSCULO NUM PLANO (Jovens escribas), de Daniel Liberalino: contos que deitam e rolam num humor às vezes escrachado, às vezes sutil, sempre usando conhecimentos de medicina e científicos.
- BARBA ENSOPADA DE SANGUE (Companhia das Letras), de Daniel Galera:
romance já muitíssimo bem encaminhado no mercado. Comentei algo sobre ele aqui no blog, mês passado. 
- O ESTRANHO NO CORREDOR (34), de Chico Lopes: conheci os contos de Nós de sombras há alguns anos, fiquei encantado com a perícia do autor. Agora, já tendo me tornado seu amigo, me deleito com a novela de ritmo perfeito, texto limpo com imagens bem definidas. 
- CONTOS BREGAS (Jovens escribas), de Thiago de Góes: livro conceitual: ele escreveu contos a partir de trechos de canções rotuladas como bregas. São histórias divertidas, emocionadas, crônicas do universo que aquelas letras tentam retratar.
- MALDITO SERTÃO (Jovens escribas), de Márcio Benjamim: contos, com ótima pegada literária, recriando temas populares "assustadores": almas penadas, mulas sem cabeça etc.
- O VERSO E O BRIEFING (Jovens escribas), de Clotilde Tavares: ensaio em que a autora analisa alguns folhetos de cordel feitos sob encomenda para publicidade de produtos, empresas, políticos, eventos etc.

domingo, 11 de agosto de 2013

NATAL E JOÃO PESSOA

http://pccn.wordpress.com/2012/05/30/semana-jose-lins-do-rego-tera-folheto-de-fabio-mozart/  

  Mais uma vez fui ao nordeste trabalhar: lançamento de Novella, ao lado de Ana Elisa Ribeiro, com seu Segredos de Capitu. A editora, Jovens Escribas, faz um evento coletivo de todo o seu catálogo, os autores se encontram com leitores e a festa é bonita. É feita uma promoção: quanto mais títulos, mais barata a unidade. Então é comum ver gente saindo com cinco, oito livros.
   Conheci Jorge, ex-garçom que abriu um sebo no bairro Mãe Luiza, uma das comunidades mais pobres da cidade. Carlos Fialho faz um parcelamento especial para ele, que vende nossos livros com destaque.
   Isso foi quinta-feira, 8 de agosto; sexta segui para João Pessoa, lançamento solo no Sebo Cultural. Fui recebido pelo guerreiro Heriberto Coelho (que ficou com quinze livros para revenda!) e pelos amigos André Ricardo Aguiar, Linaldo Guedes e Elisa Gonsalves, Maria Valéria de Rezende, Nira e Clarice, além de frequentadores que foram ouvir o cantor Alysson Silva, entre eles o Sinvaldo, que puxou boa prosa. 
   E Rinaldo de Fernandes, amigo mais antigo, que apresentou Novella aos presentes e provocou ótimas questões sobre literatura. Bella notte, como diz o Guedes, que terminou com uma ótima prosa na Cantina Muccini.
   Carlos Fialho, sua equipe e a editora Jovens Escribas e o Heriberto, do Sebo Cultural, estão realizando um excelente trabalho. Eu me sinto orgulhoso de fazer parte desse time. (Aliás, você já viu um escritor usando uma camiseta da Record, da Cia das Letras...? )

quarta-feira, 10 de julho de 2013

CONTRA A COPA, A FAVOR DO BRASIL 2

   Futebol é um esporte interessante, mas quando aconteceu a copa nos EUA, vi uma tirinha da imprensa local lá deles em que havia um sujeito diante da tevê: os primeiros quadros davam placares de resultados com números altos e o último dava zero a zero. Era, óbvio, uma crítica à falta de graça, na opinião deles, do futebol - em comparação com o basquete e o rugby.
   Mas nós aprendemos a amar o futebol.
   Eu fui atleticano desde criança até o dia em que descobri que o era porque meu irmão mais velho tinha decidido por mim que eu o seria. Daí parei de torcer e continuei só gostando do esporte. (Neste meio tempo, eu joguei muita pelada de rua, criei um time, fui capitão do time da escola, fui aprovado para o dente-de-leite do Atlético com apenas um treino, sob a supervisão de "seu Zé das Camisas", joguei pelada por meses com os colegas de trabalho...) Até o dia em que decidi torcer pro América porque era o menor, o que mais apanhava, ou seja, ideologia: preferi ficar ao lado do mais fraco e oprimido.
   Recentemente (http://sergiofantini.blogspot.com.br/2013/02/adeus-futebol.html), decidi nem torcer pro Coelho, que tantas alegrias me deu (ir ao Independência, tomar cerveja, comer o tropeiro (não tão bom como o do Mineirão), xingar juiz e jogadores (e ser ouvido) e comungar com aquela torcida bacana - não tinha preço!). Foi, mais uma vez, uma decisão consciente - e política.
   Um amigo querido, comunista (ex-PCB é comunista?), gente boa toda vida, parece outro quando o assunto é futebol: preconceituoso (como nós  éramos há quarenta anos), trata os torcedores adversários como "maria"; imagino que em dias de jogos decisivos, ateu, deve também rezar...
   Mas ele é só um exemplo de uma imensa massa de manobra engendrada pelo sistema para manter em atividade o picadeiro deste circo. Nunca foi tão explícita ou intensa (ao menos para mim) a manipulação da informação (uso do tempoespaço da imprensa). Um fato que determinou minha decisão de me tornar crítico do futebol foi ver dois operários discutindo e quase chegando à agressão física - tema: se Ronaldinho tinha jogado mal ou bem! E os dois eram atleticanos! Sentados perto dos tijolos da obra, meio dia, um calor infernal e maior preocupação deles era essa.
  Por isso também estou em campanha aberta (tarde, eu assumo, mas não o bastante para vencer) pela não realização da copa em 2014 no Brasil. Conseguir isso será o primeiro passo para que a gente reveja nossa (nós, povo) relação com o esporte.
   Para que a gente escolha o time que queremos ver vencer - sem a imposição do irmão mais velho.

terça-feira, 2 de julho de 2013

COFIANDO "BARBA ENSOPADA"



Comecei ontem a leitura de Barba ensopada de sangue, do Daniel Galera. Promete, mas me trouxe já alguma reflexão.
   Antes, já havia ouvido a mesma observação, em tom crítico, de três pessoas sobre uma característica desse romance: há excesso de descrição. Isso não me assustou; por si só, não é um problema - nem a descrição nem o palavrão nem nada - o que importa é o conjunto, a eficácia do resultado, se a coisa funciona. Um desses leitores observou que essa é uma característica do romance do século 19, ao que eu rebati que o leitor de hoje, presume-se, já tem o código das descrições (entre outros), o que permitiria ao autor evitá-las.
   O primeiro capítulo desceu bem, ok. No segundo, me lembrei de Hemmingway em, se não me engano, Paris é uma festa, em que acompanhamos (para mim, que sou fã dele, de forma cansativa) cada passo do protagonista. Reduzi a leitura para uma primeira marcha. E no trecho de hoje (leio muito no ônibus, pela manhã), ficou claro que o protagonista tem um grave (e interessante) problema de memória. Ah, sim senhor, então o excesso de descrições do narrador é/pode ser um recurso do autor para fixar no leitor esse problema! O possível aborrecimento causado pelo excesso de descrições é uma forma de compartilhar o incômodo do personagem. Ok, ponto pro Galera. 
   Vamos ver então como isso se sustenta pelas próximas 400 páginas...

segunda-feira, 1 de julho de 2013

"CONTRA A COPA, A FAVOR DO BRASIL!"

   Para compartilhar algumas postagens hoje no fb, usei este "slogan" com forte cheiro ufanista. São postagens que contrapõem as notícias sobre a copa das confederações e as manifestações que varreram o país.
   
   Há pouco tempo decidi não torcer mais para o América mineiro porque decidi ser contra o futebol. Contra o uso que se faz do futebol. Contra a inimaginável manipulação (Huxley e Orwell gostariam de ver isso) a que foram submetidas as pessoas que amam o esporte. E todos os detalhes que compõem esse cenário: os bilhões de dinheiros envolvidos (sendo a maior parte oriunda da torcedor que paga ingressos e consome produtos dos patrocinadores); o tempo investido pela mídia que leva a se crer que aquilo é realmente importante e quase a única coisa que aconteceu no dia; as firulas do universo "celebridades" tão distantes da vida do torcedor e; entre outras, principalmente a forma como as pessoas vêm aceitando isso como se sua vida fosse mesmo muito importante para o futebol.
   
   Vamos à Copa de 2014.
   Há alguns dias surgiu o seguinte argumento favorável à realização da Copa: "como já se gastou muito dinheiro, é melhor fazer, para se angariar uns caraminguás."
   Não gosto dele porque é só econômico. "Como você comprou um tatu vencido, é melhor comer, correndo riscos."
   Imagine o "país do futebol" negar-se a receber a Copa, a esta altura do campeonato, pela rejeição do povo, contrariando todos os interesses (nada populares) já investidos nela! Seria maravilhoso. Teríamos (temos) uma ótima oportunidade de recomeçar do zero. Precisamos reaprender a conviver com o esporte, não com a manipulação que se faz dele.