Fiquei preocupado. O modo silencioso como os pichadores fugiram, aqueles capuzes, o silk da cruz cheia de detalhes... Não parecia apenas molecagem. Era alguma coisa a mais. Dava para pressentir um sentido de organização.
Domingo acordei com a campainha. Cristina, vizinha do 23, também estava incomodada.
- Você viu isso?
- Claro, né, Cris, meu portão...
- Não, idiota, os outros!
- Que outros? Você acaba de me acordar.
- Vai trocar de roupa que eu te mostro.
- Café?
- Eu faço. E vê se toma um banho.
Essa moça é cheia de intimidades comigo. Não sei de onde ela tirou isso. Estudante de Letras, leu meus livros, fez um trabalho com um dos contos... Daí ficou assim, abusada. Eu gosto, ela é bacana.
Incrível! Apenas duas casas do nosso quarteirão não estavam marcadas. O Ângelo, que faz transporte escolar e os Brito, uma família enorme no início da rua. As outras, todas com suas malditas cruzes de espadas! Assustador.
A princípio foi a quantidade, mas logo vi que o que me assustava mesmo era o sentido estético daquilo. A tinta não escorreu, não havia marcas do silk, o tom preto não variava (como se eles tivessem um estoque de latas em mãos, o que te leva a pensar que havia quem carregasse ou um veículo...) e, o mais importante: visto em perspectiva, o conjunto compunha um imponente corredor, macabro.
terça-feira, 19 de março de 2013
segunda-feira, 18 de março de 2013
"OS NOVOS CRUZADOS"
Saí da biblioteca do meu bairro um
pouco mais tarde, quinta-feira da semana passada. Começou a chover logo que
abri Os Maias. Queria só dar uma espiada, ainda estou lendo A cidade e as
serras, meu primeiro Eça. Então, para dar um tempo à chuva, comecei a ler o
romance. Quando dei por mim, já havia escurecido. Passei na padaria e comprei
umas fatias de queijo pro café da sexta-feira.
Tive um dia normal. A noite deveria
se ajustar ao programado: banho, lanche, revisar as provas do livro novo e
leitura antes de dormir. Mas ao me aproximar de casa, tomei um susto: no
portão, onde esteve, durante a campanha eleitoral, um adesivo do Patrus, havia
um grafite preto. Não identifiquei a imagem de perto; me afastei e vi que era
uma cruz, enorme, composta por duas espadas.
Chequei os portões mais próximos,
todos normais. Que merda é essa, pensei? Tenho boas relações com meus vizinhos,
nunca discuti com ninguém... Não poderia fazer nada àquela hora. Entrei e
toquei minha rotina.
No dia seguinte, a caminho do metrô,
vi mais dois portões com aquela cruz horrível.
Trabalhei normalmente, mas aquilo
estava me incomodando. Seria vandalismo? Algum artista de rua? Publicidade?
Sábado bati na casa dos meus
vizinhos para ver se eles sabiam do que se tratava. Nada. Outros vizinhos
também estavam indignados com aquilo. Um deles, muito religioso, estava mais
que todos, pelo uso do símbolo cristão. (Eu não tinha pensado em religião...)
Vida que segue. À noite fui a uma
festa de aniversário, me diverti, voltei de taxi porque perdi o último ônibus. Algumas
ruas antes da minha, vi, de longe, três pessoas de capuz diante de uma casa. Estamos
no verão, BH está um inferno de calor. Aquelas figuras me chamaram a atenção.
Quando notaram que íamos em sua direção, saíram correndo. Passando pela casa,
pedi ao motorista para reduzir. Havia uma cruz de espadas recém-pintada no muro daquela
casa.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
SERVIDOR PÚBLICO DA CULTURA
Há alguns dias, o Afonso Andrade comentou no Facebook que estava completando 20 anos de serviço público. Dei-lhe os parabéns e informei que eu havia completado, em janeiro, 28 anos, na Cultura da prefeitura de BH. Alguns minutos depois, o Flávio Fargas veio me cumprimentar, brincando, pela minha "resistência". Disse a ele, que é um amigo novo, que tenho muito orgulho disso, e agora me deixa ver se foi isso mesmo...
Quando entrei, via concurso público, em 1985, passei um pequeno período no setor administrativo (Bia Morais era a diretora); por ter "redação própria", fui levado para o gabinete do secretário Arutana Cobério, fazia ofícios e datilografias em geral. Com a chegada de Berenice Menegale, fui incumbido de fazer um varal de poesia em todas as regionais - e aí voltei (*) de vez às atividades culturais propriamente ditas.
Aquele governo criou a Secretaria de Cultura, que até então era também de Turismo, e eu assumi (éramos cinco servidores no Departamento de Cultura, dirigido por Júlio Varella) uma das cinco chefias de serviço, a de Eventos. Nos próximos tantos anos (até que Arnaldo Godoy virou secretário e precisou de espaço para seu irmão e eu aproveitei para me apostilar), eu estive presente na criação/concepção/coordenação de quase tudo o que foi feito de importante na Secretaria de Cultura de BH: a 1ª Bienal Internacional de Poesia; Festival de Arte Negra; “Memória Viva”, homenagem a Murilo Rubião; Concurso Nacional de Literatura Prêmios “João-de-Barro” e “Cidade de Belo Horizonte”; Arena da Cultura; projetos Quinta com Arte, Música de Domingo, Praça Sete Seis e Meia, Estação da Música, Terça de Graça, Sexta Sintonia; Salão do Livro & Encontro de Literatura, entre outros.
Com a criação da Fundação de Cultura, venho trabalhando no setor de bibliotecas, livros, prêmios, seminários de literatura... (Detalhe essencial para aquele que ainda não conseguiu se transformar em urso hibernando: fui obrigado a conviver com pouquíssimas pessoas más; ao contrário, além dos colegas sempre muito do bem, tive a oportunidade de trabalhar e, em alguns casos, até travar amizade com dezenas dos melhores artistas brasileiros).
(*) Nove anos antes de me tornar servidor público, eu comecei a editar folhetos literários e meus próprios livros de poemas; formei, com amigos, o Grupo Canções, que apresentou espetáculos de poesia, música e teatro; realizei exposições de artes plásticas; presidi a Fundação de Cultura de Sabará, enfim: passar a atuar na prefeitura de uma grande cidade, foi a oportunidade de ampliar o alcance de tudo o que eu já vinha fazendo em nível pessoal, por puro prazer e idealismo. (E de 1985 para cá, também continuei fazendo todas as minhas coisas, fora da PBH: livros, eventos... destacadamente com meu parceiro Ricardo Aleixo.)
Quanto à imagem que o senso comum tem do funcionário público como um parasita da sociedade, deixo passar: socialista, cada movimento que faço pela prefeitura, cotidianamente, traz a convicção de que é trabalho, afinal, para o povo da cidade em que nasci e em que vivo - poderia ser melhor?
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
ADEUS, FUTEBOL!
Meu pai foi jogador de futebol, é provável que eu tenha sido incentivado a chutar uma bola desde que aprendi a andar. Desde sempre, houve peladas na rua Álvares de Azevedo, no bairro Colégio Batista (BH/MG), onde nasci. (Os gols eram portas de garagens que ficavam do mesmo lado da rua inclinada: um time atacava descendo e o outro, subindo. Era comum que a bola escapasse ladeira abaixo e fosse parar nos montes de areia da Redimix.) No alpendre de nossa casa também fazíamos, eu e meu irmão, um gol-a-gol - ou qualquer tipo de disputa que pudéssemos criar. No Colégio, fui capitão do time, certa vez, para disputar um campeonato. Treinei por um tempo no Farol, clube criado por meu pai e seus amigos, em Sabará. (Era lateral direito. Lembro de três episódios com mais interesse: sair de um treino passando mal porque o comecei sem ter me alimentado; um outro em que fui bater um tiro de meta e joguei a bola nos pés do goleador adversário - que perdeu o gol; e um jogo contra um time de BH, Estrela-alguma-coisa, em que deixei dois adversários no chão, só cortando para os lados.) Jogava direto no Florestinha, naquela época, quando ainda morava lá, antes dos 15 anos, e muitas vezes depois. Criei um time com os vizinhos de pelada, todos mais velhos que eu, o Pantera Cor-de-rosa (foi o primeiro desenho animado que vimos a cores), que chegou a fazer uns dois jogos com times mais tradicionais. Por insistência de um vizinho que jogava no América, fui tentar treinar no Atlético. O técnico do dente-de-leite era o Seu Zé das Camisas. Havia dezenas de meninos sonhadores, como eu. Ao final, ele indicou apenas a mim para voltar durante a semana e fazer a inscrição: eu estava "contratado". (Fui com meu pai, mas a sede estava fechada; vieram provas bimestrais, eu não podia ir lá sozinho, meu pai não teve mais tempo... (Por isso hoje eu não estou na tevê trabalhando como comentarista...)) Houve um bom período de peladas com os colegas da Secretaria de Cultura...
Mas essa choraminguela toda é só para dizer que eu torcia para o Atlético. Quando descobri, muitos anos depois, que só fazia isso por influência do meu irmão, parei de torcer. Fiquei sem time e sem me interessar por um longo tempo. Até que, por motivos ideológicos e de simpatia pura, decidi, já adulto, torcer para o América.
E, finalmente, o que quero registrar: tudo o que envolve o futebol profissional e o próprio futebol que se joga hoje, e o modo como o Sistema controla tudo e a imbecilidade que brilha nos olhos de meus semelhantes quando é este o assunto, me fazem decidir por não torcer mais pelo América e começar uma aborrecida campanha de difamação "contra tudo isso que está aí".
Ps: dirão as más línguas que isso tudo é porque não se pode mais ir ao Independência tomar cerveja e comer tropeiro nos jogos do Coelho. Bobagem.
Ps 2: fui procurar uma foto do Seu Zé das Camisas e vejam o que achei: "Aos finais de semana, Toninho Cerezo jogava pelo time do Ferroviário, no próprio bairro da Esplanada, até ser descoberto pelo famoso olheiro “Zé das Camisas”, que levou o garoto ao Atlético Mineiro e o apresentou ao técnico Formiga, que na época era o responsável pela categorias de base."
sábado, 2 de fevereiro de 2013
CAMPING POP: roquenrou na adolescência
CAMPING POP
Tinha sangue
na
calcinha dela, devia ser sangue, a saia arriada até os tornozelos, uma das
pernas dobrada, qual?, pelos vermelhos, mancha no umbigo, vinho?, não sei, a
camiseta arregaçada até os peitos, um deles me olhando, uma coisa, baba,
escorrendo da boca – lembranças, tudo muito vago, flashes que pipocam sem me
garantir nada, o que pode ter sido real, o que era viagem, o que são desejos e
armadilhas da memória – ela respirava, acho, seus olhos estavam abertos mas não
me viam, se é que viam alguma coisa, os cabelos longos embaraçados, cachos
espalhados emoldurando o rosto muito branco, sobre o colchonete, dentro da
barraca, na madrugada quase manhã no camping, ameaça de luz no ponto mais
distante do palco, isolados, quase sozinhos nós três
Minha barraca colorida,
ferragem
de qualidade, minha mochila de lona verde, meu cantil do exército, minha bota
de peão de trecho, minha jaqueta e minha calça jeans surradas, minha camiseta
do The Who – eu todo dela, minha cabeça, meu vinho, meu fumo, minha merreca de
grana, minha pistola – Djé sempre mais esperto, o filho da puta puxa-saco mais
gentil prestativo articulado descolou um plástico preto e rapidinho improvisou
uma proteção pra nossas coisas – e só por isso ganhou um beijo dela, além dos
já rotineiros cafunés na cabeleira black power, mais um sorriso que só as fadas
sabem dar – eu otário bancando os convites, o fumo, o vinho, descolando a
carona, a barraca – mas o AC era dele – um beijo na boca, caralho
Na
portaria
um corredor de cordas cavaletes e
metade da força policial da cidade – e nós, todos nós, um bando de vagabundos
querendo ver a porra de um show de rock, beber um pouco, apertar uns finos,
talvez tomar um ácido e Q-Suco e comer pão com salame, dançar na chuva sujos de
lama, gritar nossos ídolos, entrar em transe, comer alguém, sei lá, qualquer
merda que fizesse nossa vida divertida durante um fim de semana – e aquele
corredor polonês, a repressão ostensiva, um despertador fardado pros nossos
sonhos moleques
Cães
policiais
ladravam irados –
quando eu vi o AC na unha dele, um pedaço de grafite, uma pontinha de lápis
impossível quebrar aquilo, como dividir em dois? e se ela também quisesse?, em
três?! – eu tinha que derreter na língua sei lá se derreti ou se engoli inteiro
– inteiro? – foram dois ou três pedaços?, quem tomou? talvez os três –
policiais ladravam ao longe e ao redor e em toda parte, barracas e pessoas se
duplicavam e voltavam ao normal, o palco diminuía e voltava me engolindo,
cometas coloridos riscando o céu branco, noite de chuva – quando tentei me
levantar só consegui dar um ou dois passos ridículos e voltar pro mesmo lugar,
e tentar uma porrada de vezes sempre dançando e me esborrachando no mesmo lugar
– e numa pausa não vi os dois, eles deviam estar perto da barraca, mas eu não
sabia nem onde eu estava, resolvi andar – gente gente pra caralho, ia me
enfiando pelas pessoas, grandes olhos vermelhos e amarelos, alguém tentava me
puxar e ficava com um pedaço do meu corpo, um dedo um braço meu cinto minha
bolsa de couro – noutra pausa estava colado no palco, luzes, putaquipariu!,
luzes e dentro delas os dois trepavam
Djé
acendeu
uma pontinha e sem olhar pra trás passou pra nós – eu dei um tapinha leve – ele
disse, antes do ônibus sair, que tinha um AC pra gente – e ela, dragoa, quase
queimou os dedos – e logo tirou um pedaço de doce do bolso da blusa de lã – uma
larica incontrolável – e o cantil, que eu reabasteci escorando o garrafão na
perna dela, voltou pra mim
Um cara
de cabelos lisos tipo índio andino
tocava violão no banco do trocador, alguém batucava um pandeiro e uma porrada
de gente cantava uma daquelas musiquinhas ripongas – e isso me enchia o saco,
mas eu não reclamava pra não fazer papel de chato – ela fazia um tipo muito
espiritual generosa e pra comê-la eu precisava apresentar alguma elevação
mística ou uma meleca qualquer do gênero – e eu queria muito trepar com ela
durante o show dos Mutantes – não só eu, claro
Ela pôs sua perna
esquerda sobre a minha, quer
dizer, a coxa esquerda, mas eu não sentia nada, nós dois de calças jeans –
enquanto ela enfiava os dedos na cabeleira do Djé sentado à nossa frente – e
olhava suave pela janela – às vezes seu perfil harmonizava linhas com as
montanhas no horizonte, ou uma árvore à beira da estrada emoldurava sua cabeça
confundindo-me folhas e cabelos – eu prendia o garrafão entre os pés e usava
meu velho cantil de lata pra fazer rolar o vinho – enquanto ele circulava eu
acendia um cigarro ou enfiava as mãos sob a camisa dela – um peito, outro, o
umbiguinho, repuxava pentelhos acima da calcinha – ou desmanchava seu penteado
que começou com duas tranças, depois uma, depois uma espécie de turbante até
que se cansou e deixou os cabelos soltos, vento, um filme só pra mim
quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
COISAS DO FUTEBOL
Acabo de ler Santa Bola, livro de causos de futebol vividos e relatados pelo gente boa Rui Guimarães, irmão do meu camarada Ronaldo Guimarães. Não tem a mínima pretensão de ser literatura, é prosa de boteco entre amigos. Li com prazer - e o que mais poderia querer?
Rui é filho do professor Rui Guimarães, que me ensinou datilografia e era colega de meu pai no IMACO.
Meu pai era boleiro. Fundou, com seus amigos, dentre eles meu tio Fernando, em Sabará/MG, em tempos idos, o Farol, que de time virou também clube social (e tem participação importante na minha vida).
Eu fui peladeiro, de rua, até os quinze anos. Nesse meio tempo, treinei no Atlético, com seu Zé das Camisas e no Farol, com o Ivo. Criei um time na Álvares de Azevedo, minha rua. Havia também as peladas no Florestinha e, mais tarde, com a turma da SMC. Esta é toda minha carreira como atleta de futebol. Até pouco tempo gostava de assistir pela TV; gostava de ir ao Campo do Sete ver os jogos do Coelho, tomar uma cerveja com os amigos; tentei torcer pela Seleção até a última Copa... E acho que é só.
Mas o mais importante, o que ninguém sabe, é que meu pai tinha um chute poderoso. Isso encantou minha infância e me encanta até hoje. Era um truque que, segundo ele, chegou a derrubar um adversário que estava na barreira de uma falta: ponta esquerda, canhoto, ele vinha correndo como se fosse chutar com a direita; pouco antes da bola, fazia um giro e fuzilava com o calcanhar da canhota! Sensacional! Eu o vi, já sem o mesmo poder, claro, fazer isso várias vezes. Só meu pai mesmo.
domingo, 6 de janeiro de 2013
CHICO CÉSAR NA MADRUGADA
Mas o que quero registrar são as noites que passamos juntos. Opa! Isso mesmo. A primeira foi após um show num espaço que não existe mais, um circo... Fomos para um bar pequeno... No Prado? Não lembro. Sentamos ali devia ser quase meia-noite, conversamos até o dia clarear, eu na cerveja e ele no uísque.
Houve um show patrocinado pelo Banco do Brasil, um circuito nacional, na Serraria. Fui vê-lo antes, conversamos um pouco. Depois do show fomos ao camarim, entornamos um litrinho de uísque, macio. Nesta época ele andava com sérios problemas pessoais e, coincidentemente, ninguém mais foi cumprimentá-lo.
A última vez em que saímos assim (houve mais uma e outra, antes), foi com a companhia de Titane: emborcamos no Bolão, em Santa Tereza e tomamos café da manhã com ele no hotel, na Floresta.
Mas o que quero mesmo registrar é a simplicidade do sujeito. Cara 100% do bem. O modo de tratar os amigos, de atender aos fãs que o abordaram, de organizar-se com os produtores... Sabe aquele amigo que deixa a conversa fluir? Você nem sente a madrugada passar, a manhã chegar, o coração aberto do artista.
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