sexta-feira, 21 de março de 2014

DICA PRA VEREADORES

     Já recebi dois números da ótima revista de literatura MAPA, editada em Curitiba, por Fred e Tiago Tizzot, Rafael Kreps e Marcelo Almeida. Marcelo é deputado estadual. Não faço ideia do seu partido ou do que mais faz na vida.
     O que ele me inspirou foi uma ideia para os vereadores de BH, que pode também ser usada por nobres edis de outras cidades.
     A ver: os vereadores poderiam usar, vamos dizer 2 mil reais por mês, para levar um artista musical a um bar. O público fica livre do couvert. Nós temos aqui mais de 30 desse tipo de funcionário público. Se a cada mês dois deles patrocinarem essa atividade, serão 24 eventos por ano. 
     Melhor que nada, né?
     E se os deputados também se animarem a meter a mão no bolso? Hein, hein?
     A ideia começa com música porque ela tem mais público garantido. Mas imagina se eles entenderem que publicações impressas têm o poder de eternizar seus nomes junto a de bons escritores e ilustradores de sua cidade, de seu estado?
     Nossa, fico até entusiasmado com a esperança de que isso se torne verdade. E nem estamos na mesa de bar, mudando o mundo.
     Suas Excelências economizariam uma grana com folhetos na época da eleição... E como a democracia custa caro, como afirmou um dos representantes do povo de BH afinado com a área cultural, acho que a ideia pode vingar mesmo.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

RUI WERNECK COMENTA NOVELLA

NA PRAIA COM A PRAIA DA ESTAÇÃO 

Um dia, o Sérgio Fantini me convidou pra ir à praia. Mineiro maneiro... na praia? Eu, curitibano da casca, fui. E logo de cara veio uma onda grande e me disse: isso é boa novidade! O mar estava agitado, de ressaca, e eu fiquei na beirada, cismando. Entrar ou não entrar, eis a canoa. Quando dei por mim, tinha bebido um bom gole da água salgada e irrequieta. O mar nunca é novidade. Ou, sempre é. Não tem meio termo. E, com água até o pescoço, vi o Fantini nadando em largas braçadas até a linha do horizonte. O conto Praia da Estação estava no fim e fiquei esperando a volta do Fantini, lá de longe, em navio de luxo: o livro. 
E ele veio de motor em popa. Azeitadinho, ronronando, de porto em porto: A vida é assim mesmo, Lalona, Gustavo Furioso, Bons motivos pra se matar, Chuva, Sua, Pra cima com a vida!, Daqui pra frente, Velhos amigos, Jamais reutilize uma embalagem vazia, Um amigo de Deus, Praia da Estação (bis!), Dorinha, Muito silêncio (por nada). 
Sol quente, muito mar, areia fina e uma cerveja bem fria. Tô como o deus do mar, Netuno, gosta! 
Nem adianta perguntar: vai ter mais dessa ressaca? O Fantini, inescapavelmente mineiro, não faz marola. Não deixa escapar seus peixes grandes. Às vezes, bota uns filhotes no aquário da internet pra atrair pescadores. E vai bordando as ondas maiores, os peixes bons, as sombras das cavernas submarinas — a revolução dele é mais que uma palavra. É um terremoto submarino — que a gente chamava de maremoto. O mar remoto da literatura amiga que não tem controle remoto.


“Novella”, Sérgio Fantini, Edição Jovens escribas, 2013, capa do Marçal Aquino. Peça pra ele no Facebook dele.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

DESENHO PRA CLAREAR

   Um amigo desenhista, de quem sou fã, aceitou ver meus rabiscos e, se não me expulsar de sua casa, vai conversar comigo sobre eles. Antes que eu me envergonhe por uma coisa ou outra, deixa contar minha relação com o traço.
   Meu pai foi professor de desenho artístico e mecânico em várias escolas, entre elas o IMACO e a ETFMG, atual CEFET. Trabalhava em casa, como todos os professores (sem remuneração extra por isso), corrigindo provas que, no seu caso, eram folhas e mais folhas com desenhos de rosáceas, losangos, círculos, parafusos, engrenagens... Eu convivi com isso desde a mais tenra idade (yes!) e, claro, foi meu primeiro papel de rascunho (ainda tenho a primeira versão da ópera-rock que escrevi com o Sylvio aos 11, 12 anos). Então, além dos muitos livros que tínhamos em casa (fundamentais para fazer de mim um leitorescritor), manuseei desenhos desde sempre.
   Em algum momento antes dos 15 anos, tive caxumba durante duas semanas. Para ajudar a passar o tempo, comecei a copiar os personagens das revistinhas no caderno de desenho da escola. Acabei enchendo dois, com patos donalds, tios patinhas, luluzinhas, bolotas, riquinhos etc.
   Depois dos 15, antes dos 18, acompanhava a imprensa alternativa, que tinha muito cartum, tirinha... E surgiram revistinhas nacionais e locais. Eu assinava o Fradim, fui ao lançamento da Meia-Sola, exposições e eventos... Nessa época andava com Humberto Guimarães, Luiz Maia, Sônia Barbosa e outros amigos que gostavam e tentavam se dedicar ao desenho. (Até hoje desenho uma carinha que é plágio/adaptação dos traços desses três sabarenses.)
   Fiz um curso extra, meia-boca, de "desenho publicitário" no colégio; fiz "desenho arquitetônico" no 3º ano do 2º grau... E é só.
   (Mas meu maior laboratório são as reuniões lá onde trabalho...)
   

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Se um Calvino...

 

  Há alguns muitos anos, o escritor Francisco de Morais Mendes me emprestou seu exemplar de Se um viajante numa noite de inverno; antes, falou bastante sobre sua própria leitura do romance. Demorei a começar a minha. Li um tanto e interrompi (já não me lembro do motivo). Alguns dias atrás retomei-o, terminei agora. 

   Enquanto isso... O escritor Ernani Ssó realizou seu sonho de adolescente ao traduzir para o brasileiro o Dom Quixote. A ótima edição saiu no fim de 2012; estou lendo. Conversando com ele e lendo seus artigos no coletiva.net, adquiri a chave para não me aborrecer com a saga de Cervantes: o humor. O Quixote sempre chegou aos meus ouvidos, a vida toda, como "o clássico", o que o revestia de muito respeito, dificuldade e, com certeza, chatice. Quando decidi encará-lo, na tradução dos viscondes portugueses, não me decepcionei: desisti com duas horas de leitura (e havia separado um fim de semana inteiro para dar partida da leitura).
   Se um viajante é muito melhor se você usar esta chave: é uma ótima brincadeira (com tudo o que o Calvino traz em todos os seus textos - quem já leu sabe) sobre a escrita e a leitura literárias, sobre a construção de um romance, sobre o mercado editorial (produção, tradução, edição, marketing...). Me diverti muito, o tempo todo.
   Há muito mais ali. Deixo aqui apenas a dica, se me permitem.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

BALANÇO DE 2013

   Este foi mais um ano bom. 
   Dei as duas séries semestrais de oficina no Letras e Ponto (ano 5, acho); duas séries semestrais no Centro Cultural SESC JK; além das oficinas de leitura, curtas, em Natal, e nos centros culturais da prefeitura de BH.
   Lancei Novella, segundo livro de contos pela Jovens Escribas, (ver comentários críticos aqui neste blog) e também por ela a segunda edição do esgotado e agora totalmente revisado A ponto de explodir (2008), com uma capa foda do Guga Rodrigo Godoy Schultze (ainda fora de circulação).
   Apresentei, com Ana Elisa Ribeiro, a leitura performada Foi bom para você? - aonde ler te leva, no Sarau do Memorial. Aliás, com ela, porque também lançou seu Meus segredos com Capitu pela J. Escribas, fiz lançamentos em São Paulo, Natal, João Pessoa e Diamantina, este com direito a longo bate-papo no Museu do Diamante. Fizemos também uma oficina curta, de escrita, a Saraula, no Cefet.
   Trabalhei, contribuindo no roteiro, com Rodrigo Leste, em mais três de suas peças paradidáticas (ano 20?).
   Conversei sobre o Leite derramado, do Chico Buarque com os participantes do projeto Tertúlia Literára, na UFMG.
   Voltei a jogar futebol de salão.
   
   

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

PRÊMIO LITERÁRIO

 

  O Prêmio "João-de-Barro" de literatura para crianças e jovens foi lançado esta semana (início de dezembro/2013). Sou da coordenação, ao lado de outros colegas da FMC. Este ano teremos duas categorias: apenas texto e livro ilustrado.
   Há duas novidades que merecem atenção: o fato de que não há mais distinção entre infantil e juvenil e este "livro ilustrado" (ambas desde a edição passada).
   Quando esta ideia surgiu, vários escritores se posicionaram contra (eu, inlusive). Nos parecia, então, que o prêmio estava apenas facilitando o trabalho das editoras; entregando de bandeja um produto quase pronto etc.
   Com o tempo, refletindo melhor e depois de receber as inscrições, manusear os originais (e ter a oportunidade de "ver com os olhos dos candidatos") e, principalmente, ver o livro vencedor editado por uma major, ficou claro que a ideia é muito boa.
   O livro para crianças não pode prescindir de um projeto gráfico específico. Isso já está mais que comprovado. Como disse o escritor e artista gráfico Cláudio Martins, ele não é apenas texto, mas o conjunto de conceitos que vemos, ao final, nas livrarias.
   O mercado é assim e o Prêmio, ao adotar essa categoria, cumpre de forma mais completa seu princípio: revelar novos autores e novas obras. Além do autor de texto, há também o autor do projeto gráfico e o autor das ilustrações (muitas vezes são apenas duas ou até uma pessoa só para as três funções). Para o autor do texto chegar ao mercado, o Prêmio o convoca a antecipar um processo, queimar uma etapa por conta própria.
   Não há uma facilitação para o mercado, mas para o/s autor/es, que terão uma oportunidade/produto mais próximo/s do mercado. 
   O que se pode ressalvar: o preço de se contratar projeto gráfico, ilustração e impressão de três vias pode ficar alto (quando não se tem uma coautoria, parceria). É fato, funciona um pouco como funil. Por isso decidimos manter a categoria de texto. Há oportunidades maiores.
   A não distinção entre infantil e juvenil ainda não está totalmente clara para mim. E a extinção do júri infantil ou juvenil também não me soa bem, mas são processos que vão sendo testados.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

SAUDAÇÃO AOS NOVOS (FMC)

   Algumas postagens recentes, no facebook, do meu amigo Rodrigo Teixeira, me animaram a fazer esta singela saudação.
   Em janeiro, completo 29 anos de serviço público na cultura, em Belo Horizonte. Para comemorar, quero falar dos colegas que chegaram nos últimos quatro anos na Fundação, através do concurso específico.

   Minha primeira boa impressão foi perceber, numa reunião de trabalho do nosso departamento de bibliotecas, o amor que vários deles têm pela literatura. São bibliotecários e especialistas em diversas áreas, alguns deles também escritores, quase todos leitores intensos.
   Durante a greve deste ano, conheci outros, de outros departamentos: jovens politizados, articulados, participativos, alguns com forte espírito de liderança. Pela primeira vez, a Cultura foi citada nas assembleias gerais. Atuamos no sentido estrito das reivindicações, mas eles também criaram momentos de alegria com canções, fantasias e cartazes.
   (Quando a prefeitura pensou em nos deslocar, nós que estamos desde o tempo de "secretaria de cultura", eles, ainda "novos de casa", mantiveram uma prudente e compreensível distância de nossa resistência.)
   E há o pequeno grupo de colegas de sala (além dos vários outros espalhados pelas bibliotecas), garotas inteligentes, empenhadas, que mantêm o bom humor para trabalhar, apesar das agruras que a rotina do serviço público nos impõe.
  Por essas (e quase nenhuma outra), ainda é um prazer trabalhar diariamente na prefeitura e fazer coisas boas pela cultura de minha cidade.
   Acrescente-se a esta satisfação pessoal a convicção de que esta geração promete ser tão combativa quanto fomos. Sempre houve movimentos para eliminar a Cultura, ou ao menos rebaixá-la. Parece que, se ainda tentarem, ainda encontrarão resistência, mais uma vez.