sábado, 8 de dezembro de 2012

FAZENDO MEU LIVRO


CASA NO CAMPO

Onde eu possa plantar meus amigos”
 Tavito e Zé Rodrix

Todos os dias, Djéssika e Nathaly voltam juntas para casa. Elas pegam o ônibus na Praça da Estação. O trajeto até o distrito rural de Silvânia dura cinquenta minutos, se não houver engarrafamento na saída da cidade, o que acontece quase sempre. Hoje, com o feriado de Corpus Christi, está pior: quinta-feira, parece que todos os carros estão saindo para o litoral. Belo Horizonte não tem praia, então qualquer brechinha no calendário é motivo para essa fuga em massa. Mas elas são amigas, vão conversando e nem veem quando o ônibus entra em Silvânia.
“O que você vai fazer hoje, Nath?”
“O de sempre, né? Jantar, estudar...”
“Ah, vamos lá pra casa.”
“Meu pai me mata se eu não chegar logo, Lady D.”
“Mas amanhã é feriado, tá esquecendo? Eu converso com ele. Quem sabe você até dorme no sítio?”
“Uai, quem sabe?”
O pai de Nathaly não é muito durão. Ama seus filhos, preocupa-se com eles e por isso tenta segurar um pouco as rédeas. Lady D, por outro lado, tem um charme todo especial e sempre consegue o que quer. Enquanto caminham até a casa de Nathaly, já combinam, animadas, o agito da noite.
“Eu baixei o disco novo do Sangue Moreno, gostei pra caramba.”
“Mas eles ainda nem lançaram!”
“Coisas da rede, Nath. E o site é dos Estados Unidos!”
As duas são muito conectadas. Silvânia tem um sistema de internet por satélite, e a escola pública em que estudam, na capital, também tem um computador por aluno: nada do mundo virtual lhes é estranho.
Esta é uma quinta-feira fria, uma neblina suave deixa as poucas casas da única rua asfaltada parecendo um filme, paisagem a que elas estão acostumadas. Cercada por montanhas, Silvânia é o ponto mais frio da região metropolitana.
“A gente podia levar também o seu DVD do festival de pagode.”
“Nossa! É mesmo. Você ainda não viu, né? Tem uma hora que eu quase apareço.”
“É mesmo? Você ficou lá na frente, perto do palco?”
“Fiquei, bem naquela grade de proteção, sabe?”
Djéssika não acredita muito na sua melhor amiga. Acha que Nathaly gosta de contar vantagem, mas não a contradiz. Sabe que esta é uma forma dela não se sentir menor. Porque a família da Nath é um pouco pobre, mora numa casinha muito simples. E, sendo órfãos, ela e seus dois irmãos são muito carentes. Sua mãe teve uma morte tétrica: o corpo foi encontrado nu, na beira do rio, sem outras marcas de violência exceto pelo fato de que estava... sem a cabeça.
“Você podia aproveitar e me ajudar com o trabalho de Química, não entendi nada daquelas fórmulas.”
“Mas amanhã, né, Nath-my-darling? Hoje nós vamos só ouvir música, ver o DVD, comer pão de queijo e brincar de mistério.”

O pai de Nathaly está sentado na porta de casa, pitando um cigarrinho de palha, namorando a lua. As garotas se aproximam.
“Noite, pai.”
“Noite, filha. Noite, Jéssica.”
“Pai, tenho trabalho de escola com Djéssika. Posso ir fazer na casa dela?”
Sem alterar a voz, ele permite. Estica de novo o pescoço para a lua enquanto puxa fumaça do palhoso.

A pequena estrada para o sítio é segura, bem iluminada, apesar de não ser asfaltada. Quando chegam, a mãe está de pé, na porta da cozinha, espichando o olho para a novela, e Mateus, no chão, brinca com um sabugo de milho.  No ar, cheiro gostoso de assado. Ela usa um avental cheio de manchas e segura uma faca suja de sangue.
 “Cadê o pai?”
“Está na cooperativa. Teve assembleia hoje. Seu pai sabe que você está aqui, Nathaly?”
“Sabe, mãe, sabe. Você fez pão de queijo? Oba! Vem, Nath, vamos lá pro quarto. Depois da novela a gente vai ver um DVD, tá, mãe?”
A mãe volta para a cozinha, Mateus acompanha tudo com olhinhos atentos.
O pai chega quando começa o telejornal.
“Cadê Jéssica?”
“Está no quarto com Nathaly.”
“O que essas meninas estão fazendo lá?”
“Ara, deixa elas.”
“Jéssica! Vem cá! Agora mesmo, anda!”
Ela vem, cabeça baixa.
“Noite, pai.”
“Quem está aí?”
“É Nath, pai.”
“Ah.”
Ele aguça o olhar para a adolescente que sai do quarto. Ela se aproxima, tímida. Não é gorda, mas suas calças estão sempre apertadas e seus seios são grandes demais para a idade. Sente que o pai de sua amiga olha para eles. As pessoas falam coisas...
“Noite.”
“Você está boa, Natália?”
Boa, só?, pensa a adolescente – e sente uma quentura.
“Sim senhor.”
A mãe vem da cozinha trazendo uma panela fumegante. Mateus observa o movimento. Nathaly continua olhando para o chão, sem jeito.
“Mulher, tem couve? Então vai buscar. Jéssica, vai com sua mãe. Vê se pega um pouco de limão também, leva a sacola. E antes de voltar desliga a bomba.”
Mal as duas saem, ele dá um passo em direção a Nathaly que, finalmente, o olha no rosto. Ele retribui encarando-a; abraça-a. Ela respira com dificuldade. Ele força seus ombros, ela se ajoelha. De olhos fechados, ele tira do bolso um pequeno tubo metálico, parecido com uma caneta. A garota tenta satisfazê-lo.
Depois de alguns segundos, ele abre os olhos, afasta os cabelos de Nathaly e, num gesto firme, enfia o tubo em seu pescoço. A jovem levanta os olhos, atônita, a cabeça caindo pro lado. Ele também se ajoelha e antes que o sangue esguiche, começa a beber.
Quando a mãe e Djéssika chegam, ele está sentado ao lado do corpo, pressionando o dedo sobre o buraco para evitar desperdício. A mãe corre, repõe o canudinho. Lady D olha aquilo com tristeza.
“Puxa, pai, não podia esperar a gente ver o DVD?”
Ele apenas sorri. Ela volta para o quarto. A mãe faz barulho sugando com sofreguidão. Ao se sentir saciada, olha para Mateus, candura no semblante de mãe e um filete de sangue escorrendo pelo queixo:
 “Calma, meu filho, calma. Logo logo chegará a sua vez.”

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

RADUAN NASSAR

RADUAN NASSAR, homenageado da @[100001561654714:2048:Balada Literária] 2012, na BALADA. Dia 29.11, dois dias depois de fazer 77 anos.

Foto: @[1135062099:2048:Mario Miranda]

Numa de minhas muitas viagens a São Paulo, a partir de meados dos anos 1980, pedi a Marçal que marcasse um encontro com Raduan Nassar. Ele havia me enviado um bilhete comentando minha novela Diz Xis, e como já era fã dele... Gentilmente nos recebeu em sua casa. Conversamos e bebemos um pouco. Foi uma noite especial para mim.
   Quando fui lá para lançar meu 79/97, convidei-o, sem muita esperança de que ele fosse se dar ao trabalho. Pois quebrei a cara: não só foi como ficou um bom tempo conversando comigo. A certa altura me disse: "Você está bem, tranquilo, sereno..." Expliquei que aquilo era resultado de algum tempo de terapia. "E você não tem medo de parar de escrever?" Demos risada.
   Em 2000, voltei ao Barnaldo para lançar Materiaes. Desta vez ele não foi, mas na primeira noite ao chegar em casa, me liga e, depois de justificar sua ausência, me relembra: "Esse negócio de sucesso, fama... é tudo bobagem, Fantini. Isso tudo passa logo."
   Nosso último encontro (até agora, espero) foi em BH: ele e Chico Buarque fariam uma leitura à noite, dentro do projeto Sempre um Papo, e ele me convidou para almoçar no seu hotel. Caí na besteira de arriscar uma codorna ao molho de jabuticaba; ele pediu um filé. Quando os pratos chegaram, ele chorou de rir zombando da esqualidez de minha ave; quase aceitei sua oferta de meiar o seu bife. Depois do almoço, conversamos mais um bocado (e ele contou a chantagem emocional que um "jornalista" local lhe fez para conseguir uma entrevista exclusiva).
   Recentemente estive em São Paulo para lançar Silas. Ligamos pra ele, mas com uma voz que revelava um homem abatido, me disse que estava se sentindo velho e adoecido demais para sair de casa.
   Por isso me emocionei agora ao vê-lo com seu delicioso sorriso, barba mal feita, na Balada Literária, ontem. Por isso compartilho aqui essas memórias.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

GIRO d'ITALIA - fotos


GIRO d'ITALIA - 3

   
   Deixei de fazer um dos passeios que mais queria: Cinqueterre. Vi várias fotos, um blog com dicas, preços... tudo. Na sexta, em Lucca, quando sairíamos, choveu. Choveu até meio-dia, o bastante para atrapalhar. Acabamos ficando por lá mesmo, na maravilhosa cidade histórica. Ficou na minha lista para quando retornar à Itália.
   Em compensação, fomos a Siena, que não estava nos planos. Um conjunto medieval de fazer cair o queixo. Ruas estreitas, igrejas pequenas, igrejas imensas, castelos, paisagens de morros, casario imenso, ladeiras e a Piazza del Campo! Um dos conjuntos arquitetônicos mais bonitos que já conheci (mas eu conheço pouco).
   Deixei de conhecer o região dos vinhos da Toscana! Ah, queria tanto. Mas havia uma dificuldade logística de transporte/horário... Sonhei com Montepulciano e outras cidadezinhas de montanhas... Também ficará para a próxima.
   Mas andei muito mais por Roma. Caminhei dezenas de horas nas duas semanas que passei lá. Apesar de ser uma "cidade grande", tem encantos e recantos muito especiais. Fui a alguns restaurantes e bares (falar nisso, confidencio: sempre que possível, comprava uma cerveja e saía com ela pelas ruas, uma delícia que aqui em BH não teria a menor graça), fui a museus, fui a igrejas e à embaixada brasileira, voltei a todas as praças que estavam ao meu alcance, incluindo a Piazza del Popolo e a Villa Borghese, (pela primeira vez...).
   Sempre gostei muito de uma canção de Milton Nascimento chamada Trastevere. Finalmente conheci o bairro: um dos lugares mais mais incríveis de Roma. É uma região boêmia, muito muito charmosa. Nos hospedamos lá por uma semana, num apartamento maneiro no meio da muvuca. Quero morar em Trastevere quando crescer. 


terça-feira, 13 de novembro de 2012

POETA GILBERTO NABLE


   Esta corrente de amigos que vão chegando, infindavelmente, é das coisas boas da vida. De ter escolhido me manter na literatura.
   (Não me canso de falar isso porque isso não se cansa de satisfazer.)
   Lançamento de Roniwalter Jatobá em BH, 01/09. Muitas pessoas de suas relações, festa boa, e ele me apresenta Gilberto Nable. Gente fina. Identificamos como "o amigo em cuja casa almocei aquela vez antes de me encontrar com vocês". Ok, damos risadas com um detalhe daquele dia - e segue a festa.
   Lançamento do programa de governo da campanha de Patrus, praça de Santa Tereza, reencontro Gilberto e sua companheira Maria Célia Ferrarez. Sentamos no Bolão, tomamos umas cervejas, ótimo papo. Célia me presenteia seu livro Duas luas, uma guerra. Crônicas deliciosas, memórias cheias de poesia.
   Mais algumas semanas e Gilberto me passa dois livros de poemas: Percurso da memória (2006) e O mago sem pombos (2008, ambos pela 7 Letras).
   Ele tem uma poesia construída, articulada, densa, muito fundada também nas próprias memórias. Poeta de qualidade, consciente do material que domina sem exibicionismo; meticuloso, na medida certa para envolver o leitor. Não é poesia derramada, mas tem as dosagens exatas de emoção para nos manter ligados.
   Mais um escritor para minha estante, mais um amigo para nossa mesa.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

GIRO d'ITALIA - 2

  
 Faz tempo ouvir dizer que os italianos gostam tanto de sua língua que todos os filmes por lá têm legenda, é tudo dublado. Achei bonito, ufanismo deles. A realidade é outra...
   Nesta ida, pela Alitalia, madrugada insone, quis ver filme. (Em 2009, pela TAP, vi, legendados, Milk e Gran Torino.) Todos dublados! Apesar de saber um pouco de italiano, achei isso um porre, de cara. Lembrei daquele ufanismo antigo... Só queria ver uma bobagem qualquer para dar sono. Acabei vendo uma bobagem qualquer e treinando um pouco il mio sporco italiano
  Aí tive oportunidade de ver TV no hotel. Muito bom conseguir compreender o noticiário. Mas eis que vai começar um Law & Order. Insuportável! E era um episódio que eu já tinha visto... Aí aparece uma novela brasileira! Dei risada, tudo muito esquisito.
   Com todo respeito ao trabalho dos dubladores (crianças e adultos analfabetos precisam muito deles), acho que a dublagem, principalmente de bons filmes ou seriados, tira muito do prazer da obra, pois perde-se todo o trabalho de voz do ator. (Podemos brincar que para muitos atores pode ser um ganho (como Paulo Coelho ganhou ao ser traduzido - cf. Os dez pecados de Paulo Coelho, de Eloésio Paulo), mas imagine qualquer bom momento de seu ator favorito na voz de outra pessoa, em outra língua...).
   Voltando, agora, pela Alitalia, vi uma ótima ficção-documentário italiana sobre um atentado anarquista nos anos 1970.

GIRO d'ITALIA - 1

   
   Antes de viajar, no fim de setembro, pensei em fazer algumas reflexões aqui sobre o que foi a ida em 2009 e sobre o que seria voltar agora. Para minha sorte, a vida corrente foi mais interessante e o projeto ficou, como sói acontecer, na prancheta.
   Mas agora, não; agora será diferente: vou registrar algumas lembranças desses dois passeios, que são, mais o primeiro que o segundo, as coisas mais importantes que andei fazendo.
   Gosto de viajar de avião. Gosto de pensar que estou 10 km acima do oceano numa máquina que pode cair a qualquer momento. Sei, não é agradável dizer isso, mas faz parte de mim, a morte. E acho que só penso porque tenho a convicção de que nós vamos chegar intactos ao outro lado, digo, ao outro lado do oceano.
  Antes de decolar de Lisboa (2009), o piloto, depois de uns 30 minutos de atraso, informou: "Tivemos um pequeno problema na turbina, que eu não sei qual é, mas já estamos partindo." Olhei em volta, ninguém achou aquilo estranho! "Como assim? 'um pequeno problema na turbina' e o cara que vai nos levar Atlântico afora não sabe de que se trata?" Horas depois, quando atravessamos, céu azul, uma "pequena turbulência" por 40 minutos, fiz anotações menos engraçadinhas no meu diário, a bordo...