sábado, 13 de abril de 2013

SOBRE CAPAS - 3

    Luiz Roberto Guedes foi quem sugeriu a de Perversa, da Ana Elisa Ribeiro: uma foto antiga, de mulher nua, com intervenções do editor Joca Terron; a de Faroestes, de Marçal Aquino, também: uma placa de estrada marcada por tiros (foi plagiada ao menos duas vezes). E ainda: numa de suas visitas a BH, passeando pelo viaduto Santa Tereza, mostrei a ele a inscrição Materiaes, da Serraria Souza Pinto e disse que um dia ainda usaria aquilo como capa-título. Em 2000, alguns anos depois, comentei que estava buscando título para o livro com a Dubolso e então ele me lembrou da minha ideia...
   Festim, primeiro livro de Ricardo Aleixo: o desenho de Jorge dos Anjos forma as letras de um modo "gestáltico". As demais capas dos livros do Rique, criadas por ele, sempre com a sutileza e o conceito que te acompanham pela leitura dos poemas.
   As capas do finado Círculo do Livro: todas horríveis, péssima comunicação, ao contrário das da Ciência do Acidente e de Tião Nunes.

   Agora, para o meu Novella, calcei a cara e pedi ao Marçal um desenho. Sempre privei dessa informação e acalentava esse sonho. O amigo não titubeou. Depois de ler os textos, fez algumas experiências, trocamos impressões até chegar ao ponto. Danilo Medeiros, designer da Jovens Escribas fez a sua montagem, também dialogamos sobre detalhes e ecco, habemus capa!
   O que ela diz: casais e suas desistórias de amor, sujeitos solitários, passageiros urbanos... Para mim, que sou um péssimo comentarista do que escrevo (porque não sei ler o que escrevo), o conjunto forma um quase enredo, uma quase novela, um draminha. O que me salva de achar que este conteúdo é ridículo diante de tanta grande literatura que se publica hoje, é que acho graça no que escrevo. Sempre dou umas risadinhas quando preciso reler. Por isso o desenho sem acabamento de Marçal, as cores e tipos de Danilo, a caricatura de Giovanni Barbosa formam um todo que diz quase exatamente a que vem o livro.
   A ele, portanto!
   

sexta-feira, 12 de abril de 2013

SOBRE CAPAS - 2

   As capas de meus primeiros livros de poemas eram muito singelas. Mas gosto de lembrar que: para a do segundo livro, minha irmã Rosa Maria fez, sem modelo, um desenho que me representa fielmente, de costas, caminhando com a bolsa cheia de livros a tiracolo; a de Bakunin tem desenho de Luis Maia; a de Carapuá tem desenho (e ilustrações) de Humberto Guimarães; a de Jogo Rápido (parceria com Murilo 'Byu' Sérgio) tem foto de Júlio Bernardes; a de Ô Minina!, tem desenho de um certo Adilson, de Brasília (estávamos em turmas num bar e ele retratou meu boné, anos antes), que nunca mais vi; a de Palpites Ltda é a mais interessante: eu tinha os poemas, mas não o título; uma noite, atravessando a rua da Bahia, vi um carimbo no chão e levei para casa; era este nome; meses depois vi que existia por ali uma lotérica chamada...
   A Baleia Conceição, infantil publicado pela Saraiva, tem capa e ilustrações de Suryara Bernardi, que me foi indicada pela Ciça Fittipaldi e que eu indiquei à editora. Ela era recém-chegada de Goiânia a BH e parece que já tem feito outros trabalhos por aqui.
   
   Em vários momentos contribuí para capas de amigos. Cito dois: Francisco de Morais Mendes finalmente iria publicar seu Escreva, querida, vencedor, sete anos antes, dos prêmios da prefeitura de BH e do estado de MG. Rômulo Garcias pensou em duas mãos sobre um teclado (se não me falha a memória); sugeri que ele apenas usasse as cores preta e vermelha, como a fita das máquinas de escrever. Ana Elisa Ribeiro finalizava seu agudo Fresta por onde olhar e sua irmã (se não me falha...) havia fotografado uma fechadura colonial. Sugeri que ela fosse mais minimalista (como os poemas): capa preta com uma fresta horizontal por onde o leitor lesse o título.

SOBRE CAPAS - 1

   Muitos escritores não dão o valor exato às capas de seus livros. Eu, como complementei meu aprendizado de leitura nas placas comerciais da BH dos anos 1960, sempre tive prazer em entender e analisar publicidade e demais visualidades urbanas. Ao me enfronhar na literatura, passei a observar capas de livros.
   Diz Xis, título da novela de 1991, remete, obviamente, ao comando do fotógrafo para fazer as pessoas sorrirem ("fala xiiiiis"; "say cheese", dizem os norteamericanos). Projetei a primeira edição dessa novela como um pocket pulp e para a capa pedi ao fotógrafo Jotaerre que me conseguisse um close da escultura do índio da fachada do edifício Acaiaca. Além dela ser citada pelo personagem narrador no fim do texto, remete a uma esfinge - à qual se dirá "diz xis"?
   Atendendo ao convite de Sebastião Nunes, reuni três textos para montar o livro Materiaes, cujo título surgiu de mais uma marca da cidade: o frontão da Serraria Souza Pinto. A palavra indica que aquele galpão continha os materiais que eram usados para a construção de BH. Solange Souza, fotógrafa exilada em Roma há alguns anos, clicou para que Tião montasse uma capa sombria, de acordo com o tom dos textos.
   Coleta Seletiva, o título, surgiu em conversa com Luiz Roberto Guedes, para algum livro inexistente. Estava no estoque, quando o ainda editor Joca Terron me intimou a compor o catálogo da sua Ciência do Acidente. Resolvi reunir o que pudesse ser salvo dos meus primeiros oito livros de poemas; projetei uma capa com muitas fotos de gente e coisas da cidade. Mais uma vez Solange Souza saiu a campo (e conseguiu capturar um gol do América Mineiro, time para o qual eu torcia quando ainda acreditava que o futebol era um esporte). Joca desenhou o produto final.
   Para a coletânea A ponto de explodir eu não tinha uma ideia que me satisfizesse. Deixei por conta do jovem designer Lucas Sallum, que conseguiu um ótimo efeito de cor e sombra para uma tipologia pouco comum. O resultado compreendeu o conceito e deu um efeito atraente.
   Silas, pela Jovens Escribas, é criação de Danilo Medeiros e Leandro Menezes, de Natal. Mesmo à distância, capturaram a essência dos textos colocando, inclusive, um ônibus, meio de transporte urbano muito presente na/s minha/s história/s.
















sexta-feira, 5 de abril de 2013

"OS NOVOS CRUZADOS" 4

   Às cinco horas já havia um grupo na casa de Ângelo, umas oito pessoas. Refrigerante, suco de caixinha, suco de jarra, água, um isopor com umas latinhas de cerveja, dois pratos de papelão com salgadinhos da padaria... Ele não perderia a oportunidade de falar da associação, ia fazer aquela vaselina, aproveitando o assunto das pichações.
   - E aí, Cris, conseguiu pesquisar o desenho?
   - Deu não, meu irmão ficou no computador o tempo todo fazendo trabalho de escola.
   - Parece coisa da Idade Média, não parece? - seu Sílvio tentou contribuir.
   - Aqueles símbolos das cruzadas, né? - eu emendei.
   - São "os novos cruzados" - dona Sônia batizou.
   - Mas o que eles querem?
   Não vi quem perguntou, porque o Ângelo chegou esbaforido com uma bandeja de copos e já tentando impor:
   - Boa tarde, pessoal! É um prazer recebê-los na minha modesta morada. Vizinhos unidos! Que coisa boa de se ver.
   Eu sabia. A conversa seria demorada. Ainda mais que os portões de sua "modesta morada", a maior casa da rua, não foram marcados...
   Tentei manter a pauta:
   - Acho que são vândalos ou artistas, alguma intervenção poética...
   - Que nada - Cris me cortou -, aposto que é alguma coisa de religião mesmo, tipo uns "novos cruzados".
   - É pode ser...
   - Gente! Vocês ficaram sabendo? - a voz vinha da escada que trazia à varanda. Era a Norminha:
   - Teve o maior quebra-pau no bar da Loura!
   - Aqueles cachaceiros - Ângelo decidiu.
   - Não, não foi não! Foi um linchamento! Uns caras de fora de repente arrancaram o couro daquele moço que mora do outro lado da linha, aquele do grupo espírita.

terça-feira, 26 de março de 2013

"OS NOVOS CRUZADOS" 3

   O Ângelo se aproximou. Olhei pra ele desconfiado, de modo que ele percebesse logo. 
   - Por que sua casa não está marcada?
   - E eu sei? Viram que merda? Vai dar um trabalhão pra limpar isso.
   Teve uma época em que ele tentou criar uma associação de moradores, gosta dessas coisas comunitárias, dá muita notícia do bairro.
   - E não é só na nossa rua - eu informei. - Essa noite vi três caras pichando um muro aqui na Quaquarema.
   - E deu pra ver quem era?
   - Não, Cris, eles estavam de capuz e correram assim que meu táxi se aproximou.
   - De madrugada, é? Mas por que não sujaram minha casa?
   - Boa pergunta! Nem a sua nem a da família Brito.
   - O que vocês têm em comum? - Cris tentando entender.
   Até onde já tinha calculado, nada. Acho que os canalhas escolheram duas apenas para criar uma desconfiança, ou para desviar a atenção. 
   - Vocês acham que é coisa de religião? Essa cruz de espadas... Alguém já viu isso antes?
   - Cris, você podia pesquisar isso na internet. E a gente precisa reunir os vizinhos para esclarecer tudo. Que tal hoje por volta das quatro horas? Pode ser na varanda de casa.
   O Ângelo ia voltar com o assunto de associação de moradores, eu podia apostar. Mas concordei e fui convidar os outros vizinhos.

terça-feira, 19 de março de 2013

"OS NOVOS CRUZADOS" 2

   Fiquei preocupado. O modo silencioso como os pichadores fugiram, aqueles capuzes, o silk da cruz cheia de detalhes... Não parecia apenas molecagem. Era alguma coisa a mais. Dava para pressentir um sentido de organização.

   Domingo acordei com a campainha. Cristina, vizinha do 23, também estava incomodada.
   - Você viu isso?
   - Claro, né, Cris, meu portão...
   - Não, idiota, os outros!
   - Que outros? Você acaba de me acordar.
   - Vai trocar de roupa que eu te mostro.
   - Café?
   - Eu faço. E vê se toma um banho.
   Essa moça é cheia de intimidades comigo. Não sei de onde ela tirou isso. Estudante de Letras, leu meus livros, fez um trabalho com um dos contos... Daí ficou assim, abusada. Eu gosto, ela é bacana.

   Incrível! Apenas duas casas do nosso quarteirão não estavam marcadas. O Ângelo, que faz transporte escolar e os Brito, uma família enorme no início da rua. As outras, todas com suas malditas cruzes de espadas! Assustador. 
   A princípio foi a quantidade, mas logo vi que o que me assustava mesmo era o sentido estético daquilo. A tinta não escorreu, não havia marcas do silk, o tom preto não variava (como se eles tivessem um estoque de latas em mãos, o que te leva a pensar que havia quem carregasse ou um veículo...) e, o mais importante: visto em perspectiva, o conjunto compunha um imponente corredor, macabro.

segunda-feira, 18 de março de 2013

"OS NOVOS CRUZADOS"


Saí da biblioteca do meu bairro um pouco mais tarde, quinta-feira da semana passada. Começou a chover logo que abri Os Maias. Queria só dar uma espiada, ainda estou lendo A cidade e as serras, meu primeiro Eça. Então, para dar um tempo à chuva, comecei a ler o romance. Quando dei por mim, já havia escurecido. Passei na padaria e comprei umas fatias de queijo pro café da sexta-feira.
Tive um dia normal. A noite deveria se ajustar ao programado: banho, lanche, revisar as provas do livro novo e leitura antes de dormir. Mas ao me aproximar de casa, tomei um susto: no portão, onde esteve, durante a campanha eleitoral, um adesivo do Patrus, havia um grafite preto. Não identifiquei a imagem de perto; me afastei e vi que era uma cruz, enorme, composta por duas espadas.
Chequei os portões mais próximos, todos normais. Que merda é essa, pensei? Tenho boas relações com meus vizinhos, nunca discuti com ninguém... Não poderia fazer nada àquela hora. Entrei e toquei minha rotina.
No dia seguinte, a caminho do metrô, vi mais dois portões com aquela cruz horrível.
Trabalhei normalmente, mas aquilo estava me incomodando. Seria vandalismo? Algum artista de rua? Publicidade?
Sábado bati na casa dos meus vizinhos para ver se eles sabiam do que se tratava. Nada. Outros vizinhos também estavam indignados com aquilo. Um deles, muito religioso, estava mais que todos, pelo uso do símbolo cristão. (Eu não tinha pensado em religião...)
Vida que segue. À noite fui a uma festa de aniversário, me diverti, voltei de taxi porque perdi o último ônibus. Algumas ruas antes da minha, vi, de longe, três pessoas de capuz diante de uma casa. Estamos no verão, BH está um inferno de calor. Aquelas figuras me chamaram a atenção. Quando notaram que íamos em sua direção, saíram correndo. Passando pela casa, pedi ao motorista para reduzir. Havia uma cruz de espadas recém-pintada no muro daquela casa.