terça-feira, 6 de junho de 2017

BELLZEBUUU - um zine à moda antiga

Em agosto (?) do ano passado, eu e Adriane Garcia resolvemos fazer um zine à moda antiga: conceito, A4 dobrado ao meio, xerox, grampo... 

Recolhemos textos de alguns amigos (selecionar, a parte mais difícil...), fizemos o editorial e aceitamos a oferta/fizemos o convite a um artista gráfico -- que não pôde realizar a tarefa de diagramar.

Tempo passou, a água o boi bebeu, Natal se foi com 2016, convidei outro amigo -- que também não fez diagramação.

Tentei fazer isso sozinho, mas há uma imensa incompatibilidade entre mim e a tecnologia. Se minha Olivetti Studio 54 estivesse funcionando, datilografava e tal, mas...

Bueno, como o material é muito bom, resolvemos dá-lo a público através deste blog.

Ei-lo.
Faça bom proveito.

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BELLZEBUUU

outubro novembro abril junho/2017, desde BH/MG, nº zero


Resultado de imagem para belzebu

Eu não gosto da igreja
Eu não entro na igreja
Não tenho religião

Não!





(Titãs, in Cabeça Dinossauro)

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“SIGA AQUELA IGREJA!”
Adriane Garcia & Sérgio Fantini

"em nome de deus faz-se o diabo" (LP).

Um fanzine não é uma publicação comercial. É uma reunião de amigos para detonar seu amor. Ou seu ódio.

        "Com o mínimo de conhecimento do cristianismo, ser cristão é uma maldade e defender a Deus, um ato de crueldade com o próximo." (RT)

Fanzines são anacrônicos, mas os dias de hoje estão mais para o passado.

        "E escutes ainda, velha beata, o povo de Braga ficou imbecilizado pelas acções católicas, diabos!" (CJM)

Talvez reinauguremos a Idade Média.

 "Inútil, Senhor, / o Vosso sangue de cordeiro, se a morte é o leão / e a vida, o circo." (MV)

No Brasil, o Estado nunca foi laico, assim como política não é para leigos.

        "– Quero ver onde essa objetividade das tuas informações vai parar quando meu pai chegar com uns amigos parrudos do Frota." (ES)

Em nossas cédulas, a Casa da Moeda imprime, ad aeternum: “Deus seja louvado”.

"o senhor habitará na minha casca" (CM)

Hoje vemos a religião associada ao crime, lavagem de dinheiro, extorsão, afora os expedientes imorais de convencimento para a conversão, que necessitam da miséria, da tragédia, da esperança jamais realizada, da educação não para formar o cidadão, mas para formar a ovelha.

        "Jesus nunca amou / as criancinhas." (ST)

Há um plano claro das igrejas neopentecostais de tomar o poder político em nosso país.

"Esse plano de dominação evangélica não é cristão, mas demoníaco." (TS)

 Entre proibições de pesquisas de células-tronco e a intromissão da religião em assuntos que dizem respeito aos corpos individuais, a misoginia, a homofobia, a intolerância como lei.

        "Insisti e perguntei de que adiantaria a revelação e a descoberta, se tudo iria acabar. Deram-me outra revista, dessa vez com pessoas brancas, asiáticas, jacarés e macacos." (RL)

Triste ruído: o silêncio dos templos é sepulcral.

"Viado clerical? Existe disso?" (MH)

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Diário de Braga
Caio Junqueira Maciel, Braga/Portugal

(...) Mas o bêbado berrava que um personagem de Eça de Queirós estava certo ao dizer que Jerusalém era pior do que Braga, “mas Braga, sacristia imensa, não fica muito atrás de Jerusalém!”. D. Tília  recorre ao latim e brada: “Insignia fidelis et antiqua Bachara! Nós demos um papa ao mundo! Nós abastecemos a Igreja Católica com 24 santos!” 

O bêbado continua seu berreiro, bem debaixo de minha janela, e retruca pra d. Tília: “Braga inflacionou o céu com tanto santo! Em menos de um século, 15 arcebispos viraram santos aqui! O único santo que vale a pena é o Santo Antônio dos Esquecidos! Mas aqui, os lembrados são os figurões! Só faltou canonizarem a Dama do Drago!”. 

D. Tília não suporta o bêbado, e vocifera: “Cala essa boca repugnante, ó Grainha dos mil demônios! Não toque no nome dessa diaba de Dama do Drago, que trouxe indecências para as nossas procissões!” Ah, o bêbado se chama Grainha, gostei dele, pois ainda que chumbadão, com muita veemência ia desmoronando a Sé de Braga com palavras ora imponentes ora cabeludas, chamando os arcebispos de milhafres clericais e flibusteiros da cruz. 

Escutei bem quando ele afirmou, trocando as pernas mas sem perder o prumo verborrágico: 

“A única coisa que presta nas procissões são os farricocos, com suas véstias negras, com suas pupilas a luzir nas sinistras cógulas! Eles assumem pelo viés cômico o lado ku klux klan da igreja! E escutes ainda, velha beata, o povo de Braga ficou imbecilizado pelas acções católicas, diabos! Até as mulheres daqui são preladas e não ficam peladas! Abaixo a prepotência da igreja! Que raios partam o Frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo da peste!” (...)

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Carlos Moreira, Porto Velho / Guaporé

o senhor é meu pastor
não me faltará capim
ainda que eu caminhe
pelo vale do silício
seja de silêncio minha fala
e me retalhe o falo e a alma
faz-me repasto de vermes
guia-me para dentro da tempestade
minha dor é seu consolo
unge minha cabeça com fogo
para que a treva se reconheça
e o cálice da ira se aqueça
o senhor habitará na minha casca
por toda a eternidade
nada O fartará.

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Os primórdios da escola sem partido
Ernani Ssó, Porto Alegre/RS

Sei que ao chamar crentes em geral de gentalha, vão dizer que estou sendo desrespeitoso. Deixe eu esclarecer um detalhe: os crentes, como pessoas, têm todo o meu respeito; como intelectuais, nenhum. Se eles não percebem a diferença entre essas posturas, me parece que estou diante de mais uma prova de que tenho razão.

     – A Terra gira em torno do Sol.
     
     – Como é que é? Todo mundo tá careca de saber: é o Sol e os planetas que giram em torno da Terra. Nós somos o centro do universo. Por que Deus nos criaria à sua imagem e semelhança se não fosse assim?

     – Olha, a Terra gira em torno do Sol – ela e os planetas. Mais: nem nosso sistema solar está no centro da galáxia, sem falar que nossa galáxia é só uma entre bilhões. Isso são fatos. Quanto a Deus ter criado assim ou assado é assunto pra você resolver com Ele, diretamente, ou com os teólogos, que espremem os miolos pra fazer a realidade caber dentro de suas convicções.

  – Você só tem de informar objetivamente os conhecimentos. Não tem que bagunçar o que meu pai e minha mãe disseram que eu devo pensar e achar do mundo.

     – Pra variar, estou dando informações objetivas. Não estou discutindo impressões.

     – Quero ver onde essa objetividade das tuas informações vai parar quando meu pai chegar com uns amigos parrudos do Frota.

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Visitantes
Ricardo Laf, Belo Horizonte/MG

            Tem cerca de dois meses que me mudei de modo definitivo do lugar onde vivi durante praticamente toda a vida. Assim que me estabeleci, tocaram a campainha, em cinco ocasiões, uma senhora e um senhor que se apresentaram como Testemunhas de Jeová. Em quatro circunstâncias não pude escutar o que tinham a dizer e pedi desculpas por isso.

            Há duas semanas, o mesmo casal, com revistas que têm na capa girafas, tigres, hipopótamos, ornitorrincos, zebras, cachoeiras e pessoas brancas felizes interagindo com essa natureza paradisíaca, perguntou-me porque estava com resistência em recebê-los. Disse que não havia resistência alguma quanto a isso e a impossibilidade real era não poder conversar naqueles momentos. Chamei-os para entrar, tomar um café e prosear. Mostraram-me aquela mesma revista e perguntaram se estava preparado para o fim do mundo. Imaginei que, para perguntarem, eles estavam preparados, então reproduzi a mesma pergunta a eles e com olhos espantados me disseram que Deus prepararia tudo. Tomei a liberdade de emendar a pergunta que se Deus prepararia tudo, porque deveria estar preparado sendo tão insignificante diante de Deus. Olharam um para o outro e me disseram que estava a caminho da revelação e da descoberta. Insisti e perguntei de que adiantaria a revelação e a descoberta, se tudo iria acabar. 

               Deram-me outra revista, dessa vez com pessoas brancas, asiáticas, jacarés e macacos. Virei a primeira página e logo havia um texto descrevendo que o fim já está acontecendo.

               Reiterei ao casal sobre o desconforto de continuar a ler a revista se o fim já está acontecendo, inclusive durante a leitura dela. Disseram-me que há mistérios que só Deus entende. Poxa, se só Deus entende, por que vieram justamente aqui tratar com um merda terreno que procura apenas andar por aí tateando precariamente isso que chamam de vida?

                  O café ficou frio. Nunca mais voltaram.

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Líria Porto, Araxá/MG

fanáticos
em nome de deus faz-se o diabo
guerras violência assassinatos

lavagem cerebral
bater bater bater – malhar em ferro
forjar verdades com a matéria
da enganação

nua e crua
para se vestir a mentira
com a pele da verdade
(a mentira é balofa
as verdades são murchas)
faz-se necessário
esticar a malha
(deformar o que é justo)

pastoreio
ora uma coisa ora outra
orações subordinadas
ao pagamento
                   do dízimo
compra-se o paraíso – o inferno
é de graça

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Discurso para deputado evangélico
Manoel Herzog, Santos/SP

O pastor no Estado de Pernambuco
Em discurso forte e nada prolixo
Defende com empenho o crucifixo
E promete mandar meter trabuco

No cu de quem se atreva. Banca o truco:
"Viado clerical? Existe disso?
Enfie o que quiser no cu, se é fixo,
Melhor gozar com cu que ser eunuco,

Mas não meta Jesus neste enxovalho,
Cambada de viado salafrário!
Senão eu chamo o Bispo Rodovalho,

Chamo o Conte Lopes e o Bolsonaro,
Chamo o exército, a polícia e o caralho,
E o vosso cu varado em bala eu varo!"

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Salmo da luta inútil
Micheliny Verunschk, São Paulo/SP

Inútil, Senhor,
o Vosso sangue de cordeiro, se a morte é o leão
e a vida, o circo.
Todos os dias
rumam para a prancha
os que vão morrer e não sabem.
Inútil, Senhor,
esta dor crucificada
se nada Vos arranca
desses pregos nas igrejas,
se as Vossas mãos furadas
não conseguem deter balas,
se uma ferida brota
na Vossa palma feito um terço.
Vã é esta luta, Senhor Morto, se a morte é o leite,
o acidente que bebemos,
se nos lançamos aos bandos tal crianças tontas,
ratos que se encantam pela música da arena.
Vã é esta luta, Senhor Morto,
se ao menos Vós, só Vós escapásseis vivo, mas este é o nosso picadeiro
e o ingresso jamais é devolvido.

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Escolhendo Satanás
Rodrigo Teixeira, Belo Horizonte/MG

(...) No fim, os inimigos do cristianismo, os inimigos de Deus, são os demônios e os demonizados. Candomblés, pagãos, homens e mulheres que têm controle sobre a própria sexualidade, pessoas que lutam por uma liberdade estética e que, por isso, estão “fugindo” do amor de Deus. E isso é que faz de alguém uma figura satânica e satanista, ser apaixonado pelas manifestações das outras culturas, pela diversidade de identidades que foram se tornando demoníacas pela mão da religião cristã.

Logo, não me importo se o Deus “essencial” está ou não nos aguardando e é adorado nos corações de todos que querem fazer o bem e serem justos. Mas sou um inimigo ferrenho desse outro Deus, que tem poderes políticos e que organiza as populações em chacinas e ordens de preconceito. Esse Deus que nega direitos, que nega verdades, que impossibilita a vida feliz e sem culpa.

Esse conceito mesquinho de Deus, patriarcal, racista, homofóbico, neoliberal e consumista, que é o conceito oficial, defendido por todas as vertentes cristãs me transformou no satanista que eu orgulhosamente sou.

Escolhi Satanás porque, com o mínimo de conhecimento da história, ser cristão é uma ação antiética. Com o mínimo de conhecimento do cristianismo, ser cristão é uma maldade e defender a Deus, um ato de crueldade com o próximo. E, culturalmente, ser satanista é o mesmo que respeitar profundamente uma pluralidade de experiências religiosas que os seguidores de Javé nos negam e escondem do máximo de pessoas que podem.

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Tadeu Sarmento, Belo Horizonte/MG

Quando, diante de Pilatos, Jesus se negou a afirmar que era Rei de Roma, confessando, ao contrário, que seu reino não era desse mundo, queria dizer alguma coisa. Ou quando expulsou os mercadores do templo, gritando: “A César o que é de César”, também. Ora, tudo o que é Estado é de César, de modo que Jesus quis dar um recado às gerações futuras: “não quero uma bancada evangélica para legislar sobre um reino que não me pertence, #prontofalei”. A ética cristã é pessoal, e quando se desdobra em direção ao outro é só para aceitá-lo, nunca para atirar a primeira pedra. Nunca importou a Jesus a orientação sexual de alguém, o avanço da ciência ou a legalização do aborto. Para os neuróticos que desejam dar pitaco na vida alheia, além de um bom jato d’água que os acalme, poderíamos jogar com o seguinte argumento: Jesus disse “vinde a mim todos os que estão cansados” e não colocou nota de rodapé para excetuar nenhum grupo. Jesus era legal, era inclusivo. Quem quis tornar o cristianismo religião oficial do Estado foi Paulo, que não tinha nada a ver com Cristo (ele sequer o conheceu pessoalmente, droga) e detestava mulheres. Mas não Jesus, que gostava de estar na companhia de mulheres, crianças, mendigos, epiléticos e aloprados em geral. Esse plano de dominação evangélica não é cristão, mas demoníaco. A teologia da prosperidade promete ao crente as mesmas coisas que Satã prometeu (com muito mais charme) a Jesus durante as tentações do deserto: emprego, casa própria com piscina e land rover.

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Vinde a mim
Simone Teodoro, Belo Horizonte/MG

Jesus não amou
as criancinhas

Não se esqueçam
dos meninos de Belém

Decapitados
para que ele se safasse

Ainda hoje
Jesus não ama
as criancinhas

O clamor de Ramá
transborda
dos estômagos vazios.

Raquel chora e se lamenta para sempre
Oh Jeremias

Seus filhos
ainda existem
Dentro do osso
Irmanado à pele.

Jesus nunca me amou
Hóstia não matou a minha fome

Como fui enganada!

Aos sete
Era só a merenda da escola

Aos dez
um desmaio em pleno verão

Aos doze
restos de ração de cachorro
e sopa de verdes abacates

Eu também não amei Jesus
Sou vingativa

Temia os grossos
Pregos em seus pulsos

E o pano de chão
que escondia sua nudez

Amei um cão
Amei um gato
Uma árvore, alguns ladrilhos

Uma pedra me amou melhor
do que Jesus

Jesus nunca amou
as criancinhas.